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quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Mídia coloca em risco a democracia

"Sociedade interamericana de patrões da mídia"

Por Pedro Rafael Ferreira, no jornal Brasil de Fato: 

A principal lei que regulamenta os serviços de rádio e TV no Brasil completou, em agosto de 2012, o aniversário de 50 anos de vigência. 

Trata-se do Código Brasileiro de Telecomunicações (CBT). 

É este o instrumento que define, entre outros aspectos, o modo como são distribuídos os canais de radiodifusão. 

Os critérios para isso, contudo, jamais incorporaram os princípios da Constituição Federal de 1988 sobre combate ao monopólio e oligopólio nos meios de comunicação, nem mesmo as orientações para regionalização da programação e prioridade para conteúdo cultural, educativo e informativo. 

Também não houve o estabelecimento da complementaridade entre canais públicos, comunitários, estatais e comerciais. 

Essa é apenas uma das faces do “atraso” no sistema de comunicação brasileiro. 

Por causa disso, mais de uma dezena de organizações e movimentos sociais se reuniram na manhã desta quinta-feira (18), na Câmara dos Deputados, em Brasília (DF), em audiência pública organizada pela Frente Parlamentar pela Liberdade de Expressão e Direito à Comunicação com Participação Popular (Frentcom). 

“Essa foi uma reunião de muita representatividade, precisamos ampliar esse debate na sociedade”, avaliou a deputada Luiza Erundina (PSB-SP), coordenadora da Frentcom. 

Cadê o compromisso? 

“Estamos comemorando, neste dia, uma coisa que não existe no Brasil, que é o direito à comunicação. Por isso, esse é um dia de luta. A democracia avançou. Como não reconhecer a importância de eleger um operário presidente, uma mulher presidenta? 

Mas temos uma legislação da comunicação completamente atrasada, fora desse tempo”, avaliou Rosane Bertotti, coordenadora-geral do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC). 

A entidade, que articula diversos grupos que atuam nesse campo, lançou a campanha “Para expressar a liberdade, uma nova lei para um novo tempo”, em que reivindica a imediata disponibilização de consulta pública para uma nova legislação de comunicação. 

As entidades cobram o compromisso assumido pelo próprio ministro das comunicações, Paulo Bernardo, que chegou a fazer mais de uma declaração, ao longo de 2011, de que colocaria em debate público uma proposta de lei para reformar o sistema de comunicação. 

Há vários meses, no entanto, o tema foi silenciado pelo Executivo. 

Única autoridade do governo federal presente na audiência, o secretário de políticas culturais do Ministério da Cultura, Sérgio Mamberti, defendeu de forma taxativamente mudanças no setor. 

“A gente não pode pensar em construção do processo democrático sem democratizar a comunicação. A realização da Conferência Nacional de Comunicação [Confecom] já traduziu o desejo da sociedade”, afirmou. 

A Confecom foi realizada em 2009 e reuniu mais de 600 propostas de políticas públicas para a comunicação. 

Para o deputado federal Jean Willys (PSOL-RJ), “nenhuma reforma estrutural vai avançar sem que se enfrente o debate sobre a reforma dos meios de comunicação”. 

Segundo o parlamentar, as características culturais do país tornam essa necessidade ainda mais fundamental. “No país onde se lê pouco, as pessoas se informam e se educam basicamente pela televisão”, observou. 

“É grave a violação de direitos de minoria no rádio e TV através do fundamentalismo religioso”, concluiu o deputado, ao fazer referência sobre o uso irregular dos canais, que são concessões públicas, para proselitismo de poucos credos. 

Pressão 

A agricultora Rosana Piovezani, coordenadora nacional do Movimento de Mulheres Camponeses (MMC), conhece bem o problema que a falta de liberdade de expressão acarreta contra a classe trabalhadora. 

Na década de 1980, ela viveu por sete anos no Paraguai, sob uma das ditaduras mais ferrenhas da América Latina, durante o governo de Alfredo Stroessner (1954-1989). 

“Não se podia fazer reunião sequer para rezar”, recordou-se. Anos depois, Rosana viveu em Roraima, em plena floresta amazônica. Sem meios de comunicação que veiculassem informações sobre a luta política do povo amazônico, ela disse que a informação sobre a morte de Chico Mendes, em 1989, demorou a chegar até mesmo em comunidades extrativistas da região. 

“Nós dos movimentos sociais sentimos uma pressão muito grande da mídia contra a luta social que fazemos”, pontuou. 

Jonas Valente, do Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal, foi mais enfático. “A primeira coisa é superar o medo de enfrentar esse debate. Essa audiência marca a unidade do movimento que luta pela democratização da comunicação”, afirmou. 

O desafio é fazer a sociedade, especialmente os trabalhadores, entenderem que a “comunicação é um direito”, disse Rosane Bertoti. 

“Temos que ir às portas de fábricas, ao campo, às escolas fazer esse debate”. 

Jonas criticou duramente a postura do atual governo. 

“Com um movimento social forte como esse é inadmissível que não tenhamos a presença do governo nesta mesa. O Ministério das Comunicações não diz quando essa consulta pública vai sair”, afirmou. 

No fim de setembro, o FNDC protocolou na Casa Civil um pedido de audiência pública com a presidenta Dilma Rousseff, para apresentar as propostas da campanha e dialogar em torno de mudanças no marco regulatório das comunicações. 

Escracho 

Após a audiência, os participantes seguiram até o Ministério das Comunicações (Minicom) e fixaram placas de protesto no gramado em frente ao prédio. 

Os painéis trazem os motes da campanha, como a reivindicação por pluralidade nos meios de comunicação, ampliação e fortalecimento da comunicação pública, fim da concentração dos meios, entre outros. 

Quem passa pela Esplanada dos Ministérios, em frente ao Minicom, pode ler as placar e conhecer mais sobre as reivindicações da campanha. 

Postado por Miro

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